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09 de Setembro, 2026 ·
Disseram para você se livrar do tributarista. Mas quem assina a nota é você
Saiu uma entrevista, com boa repercussão, dizendo que a primeira economia que uma empresa pode fazer com a reforma é se livrar do tributarista. O argumento: agora a lei é uma só e quem interpreta é o Fisco....
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ZauhyEquipe Zauhy

 

Saiu uma entrevista, com boa repercussão, dizendo que a primeira economia que uma empresa pode fazer com a reforma é se livrar do tributarista. O argumento: agora a lei é uma só e quem interpreta é o Fisco.

Demorei para comentar porque não me interessa discutir se advogado é caro. Essa briga é entre advogados.

Me interessa quem paga a conta se essa ideia estiver errada. E na saúde quem paga é o profissional que assina.

O caso que explica tudo

Atemos uma dermatologista que fazia consulta clínica pela manhã e procedimento na parte da tarde, tudo pelo mesmo CNPJ.

O procedimento tem alíquota reduzida. A consulta, no enquadramento dela, não tinha.

A dúvida que ela trouxe era específica: e a toxina botulínica que ela aplica em paciente com bruxismo? É estética ou é tratamento?

O contador dela respondeu certo. Disse que precisa estar documentado como procedimento invasivo ou minimamente invasivo, com finalidade terapêutica.

E aí veio a pergunta que ninguém tinha respondido para ela.

Documentado como?

É exatamente nesse ponto que o contador termina o trabalho dele e começa o meu.

Documentado como

A fiscalização não chega no dia seguinte. Ela chega anos depois, quando ninguém mais lembra daquele paciente, daquela sessão, daquela conversa no consultório.

O que ela vai perguntar é simples e devastador: por que essa nota foi emitida desse jeito?

Nesse momento a sua defesa não é a sua palavra, nem a sua especialidade, nem o bom senso clínico. A sua defesa é o prontuário com a indicação clínica escrita, funcionando junto com um contrato social que cobre as duas atividades.

Se o prontuário registrou só "aplicação de toxina", você tem um problema. Se registrou a queixa do paciente, o diagnóstico de bruxismo, a indicação terapêutica e o resultado esperado, você tem uma tese.

A diferença entre as duas frases é a diferença entre pagar a alíquota reduzida com tranquilidade e devolver a diferença com multa e juros.

 

O que a entrevista deixa de fora

A tese de que a lei ficou mais simples é verdadeira.

Mas repare no que a frase não diz. "Quem interpreta é o Fisco" não significa que não há mais o que interpretar. Significa que a primeira interpretação sobre o seu enquadramento será feita por quem tem interesse em arrecadar.

E quem rebate essa interpretação é um advogado.

Não é o seu contador, que faz um trabalho diferente e igualmente necessário. Não é a associação da sua especialidade. Não é a operadora com quem você é credenciado.

Porque na autuação está o seu CNPJ. E no processo está o seu nome.

Outros pontos que ninguém te contou

A sua maior despesa não gera crédito. O sistema novo permite abater o imposto pago nas compras. Isso funciona bem para quem compra muito insumo tributado. Só que a maior despesa de um consultório são pessoas. Folha de pagamento não gera crédito. Duas clínicas com o mesmo faturamento podem terminar o ano com cargas muito diferentes dependendo de como estruturaram contratos, locação, equipamentos e serviços terceirizados.

O ISS fixo da sociedade uniprofissional acaba. Muitos consultórios operam com carga irrisória sob esse regime. Ele desaparece na transição. Para boa parte do setor, a reforma significa aumento real de imposto, mesmo com a redução de sessenta por cento. A redução incide sobre o tributo novo. Ela não devolve o benefício antigo.

As listas de procedimentos e produtos são revisadas. O que está enquadrado hoje pode ser revisto. Acompanhar isso não é litígio, é conformidade.

O que a dermatologista levou do meu escritório

Ela saiu com duas coisas.

O prontuário reescrito, com um padrão de registro que sustenta a indicação terapêutica quando ela existe.

E um critério definido, por escrito, para separar os dois tipos de atendimento na emissão da nota.

Se ela for questionada daqui a alguns anos, ela tem o que mostrar. É só isso que se pede de uma defesa: que ela exista antes de ser necessária.

Perguntas que valem uma conversa com o seu contador ainda esta semana

  • Cada linha da minha receita está classificada em qual faixa?

  • A descrição na nota fiscal sustenta esse enquadramento se for questionada?

  • Meu prontuário registra indicação clínica ou só registra o procedimento?

  • Meu contrato social cobre todas as atividades que eu de fato exerço?

  • Se sou sociedade uniprofissional, qual o tamanho financeiro exato da perda do ISS fixo?

  • Quais das minhas despesas geram crédito e quais não geram?

Se ele não souber responder alguma delas, você já descobriu onde está o buraco.

Perguntas frequentes

Todo médico terá alíquota reduzida? O setor de saúde prevê um abatimento de 60% das alíquotas de IBS/CBS

Toxina botulínica é estética ou tratamento? Pode ser as duas coisas, e é justamente aí que mora o risco. O que define o enquadramento é a indicação clínica registrada, não o insumo aplicado.

Minha clínica vai pagar mais ou menos que hoje? Depende do regime atual, do mix de serviços e da estrutura de custos. Quem está em sociedade simples uniprofissional tende a pagar mais. Só a simulação com os seus números responde.

Preciso de advogado se já tenho um bom contador? São funções distintas. O contador apura e cumpre a obrigação. O advogado sustenta o enquadramento quando ele for questionado, e desenha a estrutura para que ele resista. A dermatologista tinha um bom contador. Ainda assim faltava a resposta para "documentado como".

 

A lei ficou mais simples de ler

As decisões que você precisa tomar sobre o seu consultório continuam exatamente tão complexas quanto eram.

A diferença é que agora elas ficam registradas em cada nota que você emite. E vão ser lidas por alguém, depois, com muito tempo e nenhuma pressa.